2 de abr. de 2012

Avaliação Subjetiva

Primeiro dia no emprego novo. Os meses anteriores não foram fáceis para Alexia. Sem curso superior e sem experiência profissional fundamentada em longa data, estava difícil conseguir uma atividade que remunerasse de forma decente. Embora Alexia não possuísse bases para exercer um cargo o qual fosse exigido conhecimento acadêmico, sua inteligência, senso analítico e capacidade de observação deram à moça, uma excelente estrutura autodidata. Sua maior habilidade era a percepção dos aspectos fundamentais do ser humano: a psique e suas vertentes.

Durante o curso de treinamento, Alexia se pôs a observar - algo que fazia com exímia destreza. Escutou com atenção tudo que o palestrante, formado em Publicidade e Marketing, falava. O curso baseava-se em metodologia de vendas: como conquistar a credibilidade do cliente e despertar o interesse do mesmo no primeiro contato, o qual seria por telefone.

O orador falava sobre circunstâncias comuns que ocorriam durante o processo e citou uma situação a qual um casal era atendido pelo vendedor em um processo já avançado de negociação. O profissional adotava uma postura arrogante, com soberba, focando um posicionamento paralelo com os clientes, em virtude do receio de passar uma imagem supostamente inferior e, com isso, perder a venda por ser considerado inadequado para dar continuidade no fechamento de um contrato de milhões. Após sair do local, dentro do carro, a esposa pergunta ao marido:

- Você vai comprar este imóvel?
O marido, feliz com as condições apresentadas, respondeu:
- Sim, claro! Encontramos o imóvel que procurávamos! Você não está satisfeita?
A esposa olhou-lhe nos olhos e respondeu:
- Se você assinar aquele contrato, eu me separo de você.

O exemplo foi citado com o objetivo de demonstrar aos vendedores que tal posição a qual o vendedor havia passado não era eficaz e que poderia colocar tudo à perder.

Alexia levantou a mão e o palestrante pôs-se a escutar sua colocação.

- Na compra de um imóvel ou de um negócio, quem tem o dinheiro pode ser o homem, mas quem decide é sempre, a mulher. É comum da mulher observar certos detalhes que, para o homem, passam desapercebidos, como a marca de um terno, o perfume usado, o corte de cabelo, o estado dos sapatos, a marca de um relógio, a postura, a forma de falar, de gesticular, de andar. E quando é o caso de ser uma vendedora, a coisa pode ser mais complexa, pois a mesma deve dirigir-se à esposa porque, por mais que a vendedora não seja uma Angelina Jolie, os ciúmes da esposa podem atrapalhar e muito, uma venda. Nunca se sabe o que se passa na cabeça de uma mulher e menos ainda, quais são seus critérios. Em um processo de venda onde os clientes são um casal, a vendedora sempre deve conquistar a simpatia da esposa para que a negociação se torne menos carregada e, com isso, viabilizar com maior fluidez, o fechamento de um contrato.

O palestrante, surpreso, disse:
- Muito bem lembrado. Essa é uma estratégia de venda a qual adota-se muito no mercado. Me diga uma coisa: você é psicóloga?
Alexia olhou nos olhos do palestrante e respondeu, após alguns segundos:
- Não, apenas observo o ser humano.

No final do dia, já em casa, sentada à mesa de jantar, Alexia conversava com sua família sobre seu primeiro dia na nova atividade. Contente pelo que ouviu de um profissional da área de publicidade, contou o que havia ocorrido na palestra. Sua mãe, de pronto, disse:
- Ele estava de ironia.

A moça não disse mais uma palavra sequer até o final da janta. Levantou-se da mesa, escovou os dentes e foi deitar-se.

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